o alcance dos dedos
não chamarei exílio à saudade da pele.
há ainda luz e sede que a beba, sôfrega.
os pássaros deixaram cair sementes, desde o seu voo irregular e desenvolto até à gravidade segura do solo. entre o beijo e a entrada no teu corpo a minha jangada de membros perdeu âncora e leme. o sol desleixou espaços de sombra. o teu vestido caiu como cortina que se soltasse. as minhas mãos aprenderam a soletrar pele, seguindo o sotaque das tuas.
a chuva lá fora não arrefece a lareira que cuidamos, com o zelo dos amantes. as gotas de chuva nos vidros da janela tornam, certamente, difusa a imagem dos nossos corpos enleados. nem os pássaros nos conseguem espreitar, tão longe estamos do quotidiano. louvamos a pele nos intervalos dos beijos. e mergulhamos no olhar, banhando a alma de sal e prata. fabricamos a lua, sacudindos sóis e areia dos cabelos. voltamos à lava dos lábios e adormecemos dentro do fogo.
debaixo das árvores uma canção. a melodia da respiração no compasso dos beijos. a transpiração mineral. as folhas. pássaros rindo, como rapazes reguilas. e um olhar mais demorado, antes de um orgasmo conjugado nas sílabas dos corpos.

inaugurámos a pele um do outro. como em núpcias ou manhã de orvalho, demos a provar aos pássaros as primeiras sementes. generosos ainda, não apressámos o poente. sabemos que existe o horizonte. e mais além, ainda o horizonte. apertamos as sandálias sabendo que quem receber lavará dos pés o pó e às mãos confiará o que reste do sol.