Terça-feira, Março 25, 2008

caça

é um exílio rigoroso este frio a que me aconchego. longe das crateras do desejo a pele é assolada pelo desejo, como deserto em noite de tempestade. é um exílio purificador este castigo do cio. uma morada penitencial. depois da orla do sossego, o meu corpo luta por ossos, nos excedentes dos grandes predadores, como o medo ou a solidão.

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

ofícios

conheces a minha pele na cartografia dos teus dedos. sou o orógrafo do teu corpo, a tua espuma, a lança da tua vontade. em mim fazes nascer as águas e os sóis. plantas como se colhesses, lavras a minha carne com a ferocidade da língua. com os meus membros remo a jangada em que te abandonas. e és o leme da nossa navegação.

Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

estação

no frio recordo o calor do teu corpo

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

o alcance dos dedos

não chamarei exílio à saudade da pele.
há ainda luz e sede que a beba, sôfrega.

Quinta-feira, Novembro 22, 2007

soltaram-se amarras alando o desejo

os pássaros deixaram cair sementes, desde o seu voo irregular e desenvolto até à gravidade segura do solo. entre o beijo e a entrada no teu corpo a minha jangada de membros perdeu âncora e leme. o sol desleixou espaços de sombra. o teu vestido caiu como cortina que se soltasse. as minhas mãos aprenderam a soletrar pele, seguindo o sotaque das tuas.

Segunda-feira, Novembro 19, 2007

ardes-me

a chuva lá fora não arrefece a lareira que cuidamos, com o zelo dos amantes. as gotas de chuva nos vidros da janela tornam, certamente, difusa a imagem dos nossos corpos enleados. nem os pássaros nos conseguem espreitar, tão longe estamos do quotidiano. louvamos a pele nos intervalos dos beijos. e mergulhamos no olhar, banhando a alma de sal e prata. fabricamos a lua, sacudindos sóis e areia dos cabelos. voltamos à lava dos lábios e adormecemos dentro do fogo.

Terça-feira, Novembro 06, 2007

abraço verde

debaixo das árvores uma canção. a melodia da respiração no compasso dos beijos. a transpiração mineral. as folhas. pássaros rindo, como rapazes reguilas. e um olhar mais demorado, antes de um orgasmo conjugado nas sílabas dos corpos.

Segunda-feira, Novembro 05, 2007

esboço



inaugurámos a pele um do outro. como em núpcias ou manhã de orvalho, demos a provar aos pássaros as primeiras sementes. generosos ainda, não apressámos o poente. sabemos que existe o horizonte. e mais além, ainda o horizonte. apertamos as sandálias sabendo que quem receber lavará dos pés o pó e às mãos confiará o que reste do sol.

Quarta-feira, Outubro 24, 2007

invernar

a pele conhece do inverno o desejo de calor, a demanda de aconchego, o instante de arrepio, o dardejar da chuva. conhece a carícia gelada do frio, o roçar no cobertor, a lassidão na cama. conhece o oásis que brota, a lareira que se reacende, na proa de um corpo, na praia de um outro corpo.

Segunda-feira, Outubro 08, 2007

a refeição antecipada

ganhamos ímpeto, do nosso lado da margem. conhecemos a ignição da volúpia, o combustível do olhar. na corrente o tempo, que ignoramos, altivos, desde o topo do corpo. a cartografia da pele anunciada.

por beijar

contigo uso reticências.
são as palavras sonhos
que se emanciparam,
haveremos de as comer
como a frutos maduros
antes de caírem, nas
margens da pele. corre
o rio inaugurado pelo
desejo que mastigamos.

Quinta-feira, Outubro 04, 2007

na chama, o vento da nossa dança

os dois lançamos chamas, como flores que explodem
em carnaval de pétalas, nos ombros o sol mergulha
como se em horizonte líquido ao por-do-sol, os dois
colorimos signos de carne com os dedos e os lábios,
fazemos apetecer ao dia a lua, à noite oferecemos a
claridade da nossa combustão, amamos os corpos, que
nos devolvem um corpo novo, erguido da refeição em
que enleamos os membros e as línguas, brindamos ao
sol em cada beijo. artesãos do prazer, incandescemos.

brinde à tua boca

nu, feito toalha, banquete e talher.
sou fonte, taça, leito, sede e néctar.

Terça-feira, Outubro 02, 2007

beija-me

descobre na minha pele a tua

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

abrassonhado

sono abraçado

é quando me afasto da tua pele que acordo

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

voemos

dar aos corpos a trégua dos beijos, conceder-lhes água do lago antes do galope, atiçar-lhes o desejo de seguida; alimentar a combustão da pele, a salinidade das asas

Terça-feira, Setembro 18, 2007

leme

no escuro as minhas mãos
naufragam na tua embarcação,
até à praia do teu sexo são levadas
pelas ondas que os nossos corpos
levantam no lago interior da pele

coordenada

mergulha; os dois navegando o céu, dentro do corpo

Segunda-feira, Setembro 17, 2007

banho

debruçados sobre a nascente, escorre a água e esvoaça o cabelo, a pele arredondando o frio, a chama da sede mergulhada na corrente, uma cascata logo a seguir, onde esconder a roupa que escondia o corpo

Quarta-feira, Setembro 12, 2007

avança a língua

o alfabeto do teu corpo no meu percurso

Quarta-feira, Setembro 05, 2007

espera



qual de nós se levanta primeiro?

a tua pele

na língua o sal, nas mãos a volúpia exploratória, nas ancas o vigor de um animal sedento, dentro de mim ou dentro de ti as investidas do desejo; perfuramos a carapaça da resignação com dedos, falos, dentes; mordemos o calcanhar ao tempo, lançando-o pelo chão, inofensivo; aí, no teu corpo, um leito, uma lareira, o horizonte

Segunda-feira, Agosto 20, 2007

foz

o meu corpo na tua boca

Domingo, Agosto 19, 2007

prova

o teu sabor nos meus lábios, nos dedos

Quinta-feira, Agosto 16, 2007

tear da pele

onde começa o corpo, onde as extremidades e os promontórios, onde meu, onde teu? no bulir compassado o mundo tecido e alimentado a átomos de felicidade. na combustão do desejo a saúde do cosmos, no artesanato dos dedos o prazer potável e criador.

noite nossa

ainda tempo para o noivado da carne. mordemos os frutos no silêncio polposo dos segredos, confiamos à noite as perguntas e as respostas, embarcamos na jangada que os sentidos prepararam, dedilhamos o calor como uma melodia, sugamos da pele as nascentes frescas, navegozamos de beijo em beijo.

Sexta-feira, Agosto 10, 2007

pan

podemos esquecer a falta de asas por um instante, aqui, no banquete dos corpos, abrimos o mundo como a um fruto, mordemos ferindo montanhas de nascentes, lavramos a carne com a língua, bebemos das nuvens e dos sexos a fecundidade, sulcamos o leito do mar e o nosso leito, que instauramos em cada beijo

Quinta-feira, Agosto 09, 2007

ergue-se o desejo

é um beijo teu que me arrepia a pele, como o recuo de uma onda revela a areia molhada

Quarta-feira, Agosto 08, 2007

desde o teu olhar até aqui

atira-me ao corpo essa urgência que te desfaz as palavras em sussurros, que te enfurece o olhar, te transforma na fêmea esplendorosa que és, arremessa ao meu corpo a lenha do teu, a tua carne sedenta e inflamável, entra na corrente que nos atravessa