Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

dançamos

na lava dos teus movimentos, dissolvo-me florindo,
a boca vulcânica e abrupta, a pele plantando rios
na sede, os sexos fazendo colidir galáxias e desejo,
o cosmos nos lábios, em dialeto de saliva. nos teus
dentes a minha carne, o meu cio; nos nossos braços
a deflagração do prazer, almas transbordando ou
a transgressão das fronteiras do quotidiano. somos
cúmplices da luz, lavramos o assombro, abraçados.

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

antes do orgasmo

demoramos o noivado da pele, a saliva em combustão, o sangue nervoso e rápido, o coração acelerado, todo o corpo em crise. quando nos salvarmos da sede, bebendo em beijos a saciedade, toda a pele exultará, em cânticos de gratidão, na polpa do prazer.

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

dissolução

ainda este incêndio a devastar-me a pele, esta fúria desgovernada. o caudal do desejo vai alargando as margens do corpo, vai levando na enxurrada dúvidas e expectativas. como açúcar em lava, as palavras do cio desaparecem na energia do corpo.

Segunda-feira, Agosto 25, 2008

bom dia

o teu beijo acorda-me. e entro num outro sonho, o corpo encostado à imaginação, a tua boca plantando fontes na pele, os teus dedos explorando as planícies e as cavernas.

Sexta-feira, Agosto 22, 2008

abocanhar o cio

morde-se a pele e lambe-se o suor, os braços flutuando em fogueira, as coxas ardendo pântanos, o gume das línguas no flanco do desejo. penetra-se e arranha-se e beija-se, vento agitando caules, carne ondulante, os dedos lanças-garras-asas-falos. explode-se a sofreguidão e a urgência, todas as marés latejando, as constelações reunidas em acúcar no mel azul do céu.

Quinta-feira, Agosto 07, 2008

desde o nosso leito

foi depois da viagem à orla da pele que veio o sal contaminar as artérias de cio e urgência. agora os caminhos são um labirinto em chamas, uma fogueira congestionando a habilidade do olhar. os dedos emigraram desde a sede até às tuas entranhas, desde o dentro de ti até ao redor de nós. o que compõe o futuro existe nos rios subterrâneos, nas primeiras gotas de chuva, na tua saliva, no meu sémen, nas marcas das unhas, no pó que ainda não levantámos, nos caminhos ainda desconhecidos. o futuro é tudo o que fica a seguir à janela que inventarmos. sabemos que sorrir afasta as rugas da razão e convoca dos beijos a alegria tola, inconsequente e essencial. comemos luz no banquete da carne.

Terça-feira, Março 25, 2008

caça

é um exílio rigoroso este frio a que me aconchego. longe das crateras do desejo a pele é assolada pelo desejo, como deserto em noite de tempestade. é um exílio purificador este castigo do cio. uma morada penitencial. depois da orla do sossego, o meu corpo luta por ossos, nos excedentes dos grandes predadores, como o medo ou a solidão.

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

ofícios

conheces a minha pele na cartografia dos teus dedos. sou o orógrafo do teu corpo, a tua espuma, a lança da tua vontade. em mim fazes nascer as águas e os sóis. plantas como se colhesses, lavras a minha carne com a ferocidade da língua. com os meus membros remo a jangada em que te abandonas. e és o leme da nossa navegação.

Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

estação

no frio recordo o calor do teu corpo

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

o alcance dos dedos

não chamarei exílio à saudade da pele.
há ainda luz e sede que a beba, sôfrega.

Quinta-feira, Novembro 22, 2007

soltaram-se amarras alando o desejo

os pássaros deixaram cair sementes, desde o seu voo irregular e desenvolto até à gravidade segura do solo. entre o beijo e a entrada no teu corpo a minha jangada de membros perdeu âncora e leme. o sol desleixou espaços de sombra. o teu vestido caiu como cortina que se soltasse. as minhas mãos aprenderam a soletrar pele, seguindo o sotaque das tuas.

Segunda-feira, Novembro 19, 2007

ardes-me

a chuva lá fora não arrefece a lareira que cuidamos, com o zelo dos amantes. as gotas de chuva nos vidros da janela tornam, certamente, difusa a imagem dos nossos corpos enleados. nem os pássaros nos conseguem espreitar, tão longe estamos do quotidiano. louvamos a pele nos intervalos dos beijos. e mergulhamos no olhar, banhando a alma de sal e prata. fabricamos a lua, sacudindos sóis e areia dos cabelos. voltamos à lava dos lábios e adormecemos dentro do fogo.

Terça-feira, Novembro 06, 2007

abraço verde

debaixo das árvores uma canção. a melodia da respiração no compasso dos beijos. a transpiração mineral. as folhas. pássaros rindo, como rapazes reguilas. e um olhar mais demorado, antes de um orgasmo conjugado nas sílabas dos corpos.

Segunda-feira, Novembro 05, 2007

esboço



inaugurámos a pele um do outro. como em núpcias ou manhã de orvalho, demos a provar aos pássaros as primeiras sementes. generosos ainda, não apressámos o poente. sabemos que existe o horizonte. e mais além, ainda o horizonte. apertamos as sandálias sabendo que quem receber lavará dos pés o pó e às mãos confiará o que reste do sol.

Quarta-feira, Outubro 24, 2007

invernar

a pele conhece do inverno o desejo de calor, a demanda de aconchego, o instante de arrepio, o dardejar da chuva. conhece a carícia gelada do frio, o roçar no cobertor, a lassidão na cama. conhece o oásis que brota, a lareira que se reacende, na proa de um corpo, na praia de um outro corpo.

Segunda-feira, Outubro 08, 2007

a refeição antecipada

ganhamos ímpeto, do nosso lado da margem. conhecemos a ignição da volúpia, o combustível do olhar. na corrente o tempo, que ignoramos, altivos, desde o topo do corpo. a cartografia da pele anunciada.

por beijar

contigo uso reticências.
são as palavras sonhos
que se emanciparam,
haveremos de as comer
como a frutos maduros
antes de caírem, nas
margens da pele. corre
o rio inaugurado pelo
desejo que mastigamos.

Quinta-feira, Outubro 04, 2007

na chama, o vento da nossa dança

os dois lançamos chamas, como flores que explodem
em carnaval de pétalas, nos ombros o sol mergulha
como se em horizonte líquido ao por-do-sol, os dois
colorimos signos de carne com os dedos e os lábios,
fazemos apetecer ao dia a lua, à noite oferecemos a
claridade da nossa combustão, amamos os corpos, que
nos devolvem um corpo novo, erguido da refeição em
que enleamos os membros e as línguas, brindamos ao
sol em cada beijo. artesãos do prazer, incandescemos.

brinde à tua boca

nu, feito toalha, banquete e talher.
sou fonte, taça, leito, sede e néctar.

Terça-feira, Outubro 02, 2007

beija-me

descobre na minha pele a tua

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

abrassonhado

sono abraçado

é quando me afasto da tua pele que acordo

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

voemos

dar aos corpos a trégua dos beijos, conceder-lhes água do lago antes do galope, atiçar-lhes o desejo de seguida; alimentar a combustão da pele, a salinidade das asas

Terça-feira, Setembro 18, 2007

leme

no escuro as minhas mãos
naufragam na tua embarcação,
até à praia do teu sexo são levadas
pelas ondas que os nossos corpos
levantam no lago interior da pele

coordenada

mergulha; os dois navegando o céu, dentro do corpo

Segunda-feira, Setembro 17, 2007

banho

debruçados sobre a nascente, escorre a água e esvoaça o cabelo, a pele arredondando o frio, a chama da sede mergulhada na corrente, uma cascata logo a seguir, onde esconder a roupa que escondia o corpo

Quarta-feira, Setembro 12, 2007

avança a língua

o alfabeto do teu corpo no meu percurso

Quarta-feira, Setembro 05, 2007

espera



qual de nós se levanta primeiro?

a tua pele

na língua o sal, nas mãos a volúpia exploratória, nas ancas o vigor de um animal sedento, dentro de mim ou dentro de ti as investidas do desejo; perfuramos a carapaça da resignação com dedos, falos, dentes; mordemos o calcanhar ao tempo, lançando-o pelo chão, inofensivo; aí, no teu corpo, um leito, uma lareira, o horizonte

Segunda-feira, Agosto 20, 2007

foz

o meu corpo na tua boca